O peso que ninguém vê: maternidade, cobrança e o sujeito que desaparece.
Uma visão crítica de como a sociedade encara a maternidade.
5/9/20264 min read


Existe uma contradição que estrutura a experiência de ser mãe na cultura ocidental contemporânea: quanto mais a mulher se dedica à maternidade, mais invisível ela se torna como sujeito. E quanto mais tenta preservar algo de si mesma, mais exposta fica ao julgamento coletivo. Essa armadilha não é acidental: ela tem raízes históricas profundas e é sustentada por mecanismos psíquicos e sociais que se reforçam mutuamente.
O ideal materno como construção social
A psicologia social, desde Moscovici até as teorias de gênero contemporâneas, nos ensina que as representações sociais não apenas descrevem a realidade, elas a prescrevem. O "ideal materno" que circula em nossa cultura é uma construção: a mãe devotada, sempre disponível, emocionalmente estável, que amamenta, estimula, acompanha e jamais prioriza a si mesma sem sentir culpa. Esse ideal, naturalizado como instinto, é na verdade produto de um longo processo histórico que transformou a maternidade em vocação total.
Winnicott cunhou a expressão "mãe suficientemente boa" justamente para liberar as mães da perfeição — mas o paradoxo é que esse conceito também foi apropriado culturalmente e transformado em mais uma régua para medir falhas. A mãe que trabalha demais não é suficientemente presente. A que está sempre presente é sufocante. O ideal é móvel, escorregadio, e funciona exatamente assim: a impossibilidade de alcançá-lo é o que garante a culpa permanente.
A culpa como produto psíquico e também, como instrumento de controle
Do ponto de vista psicanalítico, a culpa materna não emerge do nada. Ela se instala a partir de uma estrutura que Freud já apontava: o superego, instância que internaliza as exigências culturais e as converte em voz interna acusatória. A mãe carrega um superego social particularmente cruel, alimentado por décadas de discurso médico, pedagógico e religioso sobre o que significa "ser boa mãe".
Melanie Klein aprofundou essa questão ao mostrar que a ambivalência, amar e ao mesmo tempo sentir raiva, frustração e esgotamento, é constitutiva da experiência emocional humana. Mas a cultura não tolera a ambivalência materna. A mãe que diz "às vezes odeio esse papel" rompe com um tabu poderoso, porque sua fala ameaça o mito da maternidade como realização plena e natural. O resultado é o silêncio. A mulher aprende cedo que seus sentimentos negativos são inadmissíveis, e os engole. Isso tem um nome clínico: dissociação afetiva. E um custo psíquico alto.
O desaparecimento do sujeito
Uma das questões mais perturbadoras levantadas pela teoria feminista e pela clínica psicanalítica é a forma como a maternidade pode produzir o que poderíamos chamar de obliteração subjetiva: o gradual apagamento da mulher como ser desejante, com necessidades, limites e existência própria. Não porque a maternidade seja, em si, alienante. Mas porque a cultura organiza as condições materiais e simbólicas para que a mãe só exista em função dos outros.
Simone de Beauvoir já apontava que a "vocação maternal" era um dos principais mecanismos pelos quais a mulher era mantida na imanência, no mundo do cuidado cotidiano, repetitivo e invisível, enquanto o homem ocupava a transcendência, o espaço público, a história. Décadas depois, com mulheres no mercado de trabalho, o que mudou é que agora elas também devem ocupar a transcendência, sem deixar de sustentar a imanência. A carga dobrou; o reconhecimento, não.
A rede de cobranças e seus sujeitos
As cobranças não vêm apenas de fora, de familiares, da escola, das redes sociais e do mercado de produtos para bebês. Elas também vêm de dentro, e essa é a parte mais perversa. A mulher incorpora os critérios pelos quais será julgada e passa a se autovigilar. Foucault chamaria isso de efeito de disciplinamento: o poder não precisa de um agente externo permanente quando o próprio sujeito se torna seu fiscal.
As redes sociais amplificaram esse mecanismo de forma sem precedentes. A maternidade passou a ser também uma performance pública, sujeita à aprovação coletiva em tempo real. Cada escolha — amamentar ou não, trabalhar ou não, punir ou não, escolher esta ou aquela escola — é potencialmente um objeto de julgamento de estranhos. O que deveria ser uma experiência íntima e singular tornou-se um campo de vigilância mútua.
O que fica invisível
O que a psicologia social e a psicanálise nos permitem ver — e que o senso comum frequentemente ignora — é que o sofrimento das mães não é fraqueza individual. É resposta racional a uma estrutura irracional. A exaustão não é falta de amor. A ambivalência não é desvio patológico. A vontade de existir para além do papel materno não é egoísmo.
Quando uma mulher chega ao consultório dizendo que "não aguenta mais" mas não consegue identificar por quê afinal, "tem tudo", o que frequentemente está em jogo é o peso de uma contradição cultural que ela foi ensinada a carregar sozinha, em silêncio, e a converter em culpa particular o que é, na verdade, falha coletiva.
Nenhuma terapia individual resolve um problema estrutural. Mas nomear, dar linguagem ao que estava difuso, pesado e envergonhado, é sempre um primeiro ato de resistência.
Uma perspectiva crítica não diminui o amor que existe na maternidade. Ela apenas recusa que esse amor justifique o apagamento de quem ama.
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Gabriela de Araújo Almeida
Psicóloga Clínica – CRP 06/231625
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