Maternidade e Culpa

O lugar em que a mulher é culpada por todas as partes.

5/4/20261 min read

Há um peso que muitas mães carregam em silêncio e ele não começa na maternidade, mas muito antes dela.

Ser mãe, para muitas mulheres, não é apenas um acontecimento da vida, mas uma convocação inconsciente: a de reparar, repetir ou até redimir a própria história. Não se trata só de cuidar de um filho, mas de lidar com aquilo que um filho desperta.

Porque um filho não chega em um terreno neutro. Ele atravessa uma mulher que já foi filha, que já foi marcada por faltas, excessos, expectativas e frustrações.

E é aí que o peso se instala.

O ideal de “boa mãe”, sempre disponível, paciente, amorosa, inteira, não é apenas social. Ele também se enraíza no psiquismo. Muitas mulheres não sofrem apenas pelo que fazem, mas pelo que acreditam que deveriam ser.

E quanto maior a distância entre o ideal e o possível, maior a culpa.

Uma culpa que não cessa.

Culpa por trabalhar demais.
Culpa por trabalhar de menos.
Culpa por desejar um tempo só seu.
Culpa por, às vezes, não desejar tanto assim estar ali.

A maternidade, então, deixa de ser um espaço de encontro e passa a ser um campo de cobrança.

Mas há algo pouco dito: nenhuma mãe é suficiente o tempo todo. E talvez seja justamente isso que possibilita que um filho exista como sujeito.

A falha materna, aquilo que escapa, que não dá conta, que não corresponde ao ideal, não é um erro a ser corrigido, mas uma condição necessária.

Ainda assim, muitas mulheres vivem tentando sustentar um impossível: o de não faltar nunca.
E isso pesa.

Pesa porque exige uma renúncia constante de si.
Pesa porque silencia ambivalências.
Pesa porque transforma o amor em obrigação.

Dai a importância de nomeá-lo, de entendê-lo.

E, pouco a pouco, autorizar-se a ser uma mãe possível e não uma mãe ideal.